Vivemos a era mais tecnologicamente avançada da história humana. Algoritmos de inteligência artificial escrevem poesias, robôs realizam cirurgias com precisão microscópica, bilionários planejam colonizar Marte. Nunca a humanidade produziu tanta riqueza, nunca dominou tanto a natureza, nunca teve tanto poder sobre a matéria e a informação. E, no entanto, quase 700 milhões de pessoas ainda vivem em extrema pobreza, crianças morrem de doenças facilmente evitáveis, e milhões não têm acesso a água potável.
Esta contradição não é um acidente da história — é seu projeto mais deliberado.
A tecnologia, que prometia libertar a humanidade do trabalho exaustivo e da escassez, tornou-se instrumento de concentração sem precedentes. Enquanto startups do Vale do Silício são avaliadas em bilhões antes mesmo de gerarem lucro, trabalhadores de aplicativos disputam corridas por migalhas, sem direitos trabalhistas, sem dignidade, transformados em algoritmos de carne e osso. A automação, que deveria reduzir nossa jornada de trabalho e expandir nosso tempo livre, apenas multiplicou os lucros de poucos enquanto precariza a existência de muitos.
Os números revelam uma obscenidade matemática: as dez pessoas mais ricas do mundo possuem mais riqueza que os 3,1 bilhões mais pobres. Um único bilionário poderia acabar com a fome em nações inteiras sem sequer sentir o impacto em sua fortuna. Mas a lógica do capital não conhece compaixão, apenas acumulação. A riqueza não existe para ser distribuída, mas para gerar mais riqueza — um ciclo autofágico que devora sociedades inteiras em nome do crescimento perpétuo.
E a tecnologia acelera esta devoração. Plataformas digitais extraem dados como se fossem petróleo do século XXI, transformando cada clique, cada curtida, cada momento de nossa atenção em commodity. Pagamos pelos produtos que compramos e pagamos novamente com nossa privacidade, nossos hábitos, nossa subjetividade. Somos simultaneamente consumidores e mercadoria.
Enquanto isso, a miséria se moderniza. Não é mais apenas a fome descrita por romancistas do século XIX — é a fome do entregador que percorre 80 quilômetros de bicicleta por dia, é a dívida estudantil que aprisiona jovens por décadas, é o desemprego tecnológico que transforma trabalhadores experientes em obsoletos da noite para o dia. A miséria agora tem WiFi, mas continua sem ter teto, sem ter comida, sem ter futuro.
O mais perverso é que nos venderam a narrativa de que este é o único caminho possível, que a desigualdade é natural como a gravidade, que os bilionários são gênios visionários e não beneficiários de um sistema viciado desde sua fundação. Celebramos quem "venceu na vida" sem questionar quantos precisaram perder para que poucos vencessem.
A verdade inconveniente é que temos recursos, tecnologia e conhecimento suficientes para erradicar a fome, garantir moradia digna a todos, universalizar a educação e a saúde. O que nos falta não é capacidade técnica — é vontade política. É escolha. Todos os dias, coletivamente, escolhemos este mundo onde bilionários brincam de astronautas enquanto mães decidem qual filho comerá hoje.
A questão que nos persegue não é "podemos criar um mundo melhor?" — sabemos que podemos. A pergunta verdadeira é: "teremos coragem de construí-lo?" Ou continuaremos adorando no altar do progresso tecnológico enquanto a humanidade, essa estranha espécie capaz de dividir átomos mas incapaz de dividir o pão, marcha solene rumo ao absurdo de sua própria contradição?